17/07/2010

Darwin in Rio.

Diário de Darwin comentado - parte 16.

Neste ponto da viagem Darwin ficou sozinho no Rio, pois o Beagle teve que retornar à Bahia para refazer algumas medições topográficas (Casa da Ciência).

No ano em que Darwin chegou ao Brasil (1832), este gigante pela própria natureza, tinha um Imperador ainda criança e era governado pela Regência Trina Permanente. Embora deitado eternamente, havia muito decontentamento político e social que gerou uma série de movimentos revolucinários como a CABANADA, que agitou as matas ao sul de Pernambuco e norte de Alagoas (Fernando Dannemann). Nesse mesmo período, na Bahia, ocorreram vários movimentos, Classificados, na historiografia, sob o título genérico de “Movimentos Nativistas” e um dos quais eclodiu no Recôncavo Baiano, em 1832, a partir da Vila de São Félix, chegando a estabelecer um governo provisório (Wikipédia).

A história mostra que os movimentos sociais sempre agitaram o nosso "berço esplêndido", mas na atualidade eles são bem "mais pacíficos", por mais fortes que sejam as tintas usadas para divulgá-los, nacionalmente. Porém, em 1832, não havia como se tomar conhecimento de eventos tão extraordinários em todo o território nacional, por isso eles ficavam circunscritos à sua vizinhança mais imediata.

Alheio aos conflitos, os diários de Darwin revelam aspectos da natureza e do cotidiano de um povo que vivia sob a égide do 10º maior império da história da humanidade, durante seu período regencial que durou de 1831 a 1840 (Wikipédia).

Esse cotidiano já havia sido pintado por artistas franceses, como Debret entre 1815 e 1820, mas ao olhar de Darwin receberia outras 'tintas', que ainda assim retratariam cenários semelhantes e tristes relacionados à escravidão negra no Brasil.


Darwin: 4 de abril a 5 de julho de 1832 – Alguns dias depois da nossa chegada, travei conhecimento com um inglês, dono de uma fazenda situada ao norte de Cabo Frio, a mais de 160 km de distância da capital. Como estivesse preparando-se para visitá-la, convidou-me a lhe fazer companhia, o que aceitei de bom agrado.

Darwin: 8 de abril – A nossa caravana consistia de sete pessoas. O primeiro percurso foi muito interessante. O dia estava excessivamente quente, e ao passarmos pelos bosques encontramos tudo imóvel, com exceção de algumas borboletas grandes e brilhantes que, preguiçosamente, esvoaçavam de um lado para o outro. O panorama que se descortinava das colinas de detrás da praia Grande (Niterói) era deslumbrante, pela intensidade das cores em que prevalecia um tom azul escuro: embaixo as águas tranquilas da baía (Guanabara) disputavam com o céu a supremacia do esplendor. Depois de havermos atravessado algumas áreas de terra cultivada, embrenhamo-nos por uma floresta, cujos recantos eram de inexcedível grandiosidade.


Darwin: Ao meio dia chegamos a Itacaia, pequena aldeia situada numa planície. Em torno da casa principal ali existente, viam-se as choupanas dos negros. A forma e a posição desses casebres fizeram lembrar-me das gravuras que vi de habitações hotentotes na África do Sul. Como a lua nascesse cedo, resolvemo-nos a partir na mesma tarde a fim de pernoitarmos na lagoa Maricá.

Durante este caminho Darwin conhece um pouco da trágica história dos quilombos, que até os dias de hoje possuem alguns remanescentes, como retratados na imagem abaixo (Fotografia e Cinema)

Darwin: É notório este lugar, pelo fato de ter sido, durante muito tempo, o quilombo de alguns escravos fugidos que, cultivando pequeno terreno próximo à vertente, conseguiram suprir-se do necessário sustento. Mas foram, um dia, descobertos e reconduzidos dali por uma escolta de soldados. Uma velha escrava, no entanto, preferindo a morte à vida miserável que vivia, lançou-se do alto do morro, indo despedaçar-se contra as pedras da base. Se se tratasse de alguma matrona romana, esse gesto seria interpretado como nobilitante amor à liberdade, mas, numa pobre negra, não passava de simples caturrice de bruto.

Essa história, certamente, afetou negativamente o humor do jovem Darwin colocando-o num estado de melancolia que se refletiu na descrição do ambiente, durante o restante do percurso:

Darwin: Continuamos cavalgando várias horas. No decurso dos primeiros quilômetros a estrada emaranhava-se por um deserto de lagunas e pântanos dando ao cenário banhado de luar o aspecto mais desolador que se podia imaginar. Alguns pirilampos cruzavam o ar perto de nós, e a nosso ouvido chegava o gemido da narceja, que fugia à nossa passagem. As ondas que se quebravam nas praias longínquas mandavam-nos, através do silêncio da noite, o seu marulhar surdo e monótono.

Por: Gladis Franck da Cunha

Referências e fonte das imagens:
Darwin, C., Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo - Vol.1, Nova edição, 1871. Abril Cultural. Companhia Brasil Editora, São Paulo, s/d.
CASA DA CIÊNCIA - Caminhos De Darwin no Rio de Janeiro -
HISTÓRIA BRASILEIRA. Missão artística francesa.
HISTÓRIA DE MINAR GERAIS 
IMPÉRIO DO BRASIL. Cidade do Rio de Janeiro - História e Evolução - séc. XIX.
Paraibarama
Portal Baía de Guanabara
O Globo - cultura
Wikipedia – Narceja comum 
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Próxima parte *17*.

2 comentários:

  1. Darwin um homem genial cujo legado para a comunidade cientifica " A Origem das Espécies" de um mérito indiscutivel é digno do nosso reconhecimento pelo seu esforço e dedicação.

    Sem pretensões, vou expressar o meu ponto de vista sobre a espécie humana.

    O Homem é um prematuro.

    Para fazer o que faz, precisaria de permanecer no ventre materno mais 20 anos, mas isso não é possível; assim, nasce no termo de 9 meses, tendo, portanto, de receber por cultura aquilo que a natureza lhe não deu.

    Frágil segundo a natureza e sem especialização, tem de criar uma espécie de segunda natureza ou habitat, precisamente a cultura, sua origem, e não na natureza.
    Os outros animais nascem feitos, o Homem, nascendo por fazer, em aberto, tem de fazer-se a si mesmo e caracteriza-se por essa tarefa de fazer-se com outros numa história aberta, em processo.

    Assim, no processo de nos fazermos, o outro aparece inevitavelmente. O outro não é adjacente, mas constitutivo. Só sou eu, porque há tu, em reciprocidade. O outro pertence-me, pois é pela sua mediação que venho a mim e me identifico: a minha identidade passa pelo outro, num encontro mutuamente constituinte.
    Então, o outro é vivido sempre como fascinante e ameaça. Os gregos, por exemplo, chamavam bárbaros aos que não sabiam falar grego, mas tinham fascínio por outros povos, concretamente pelos egípcios.

    O outro é outro como eu, outro eu, e, simultaneamente, um eu outro, outro que não eu.
    Daí, a ambiguidade do outro. O outro enquanto outro escapa-se-me, não é dominável.
    Nunca saberei como é viver-se como outro.
    Quando olhamos para outra pessoa, perguntamos: como é que ela se vive a si mesma, por dentro?, como é que ela me vê?, como é o mundo a partir daquele foco pessoal?

    No quadro desta ambiguidade, entende-se como, por medo, ignorância, desígnios de domínio, se pode proceder à construção ideológica e representação social do outro essencialmente e, no limite, exclusivamente, como ameaça, bode expiatório, encarnação e inimigo a menosprezar, marginalizar, humilhar e, no limite, abater, eliminar.

    Num mundo global, cada vez mais multicultural e de pluralismo religioso, é urgente repensar a identidade e avançar no diálogo intercultural e inter-religioso.

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  2. isso e muito interessante

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