30 de mai de 2010

O que é conceito?

Um primata bípede somente pode ser considerado um ser humano quando domina a linguagem e a prova disto é que as impressões infantis mais vívidas são da fase pós fala.
Cadeira conceito
Pois bem, ao falarmos de conceituação temos que abarcar primeiramente a noção dos dois mundos: o das coisas reais e a instância da linguagem, que são dimensões distintas. O segundo passo lógico é entender a nossa limitação intrínseca de não possuirmos o ACESSO AO REAL. Por sermos animais simbólicos, criamos uma interface entre nós o universo, mas o que descrevemos das coisas não abarca a totalidade delas em si.

Sob este panorama, os conceitos se constituem na instância mediadora entre o sujeito e o real, ou seja, é a forma que encontramos para descrever as coisas tangíveis e intangíveis que nos cercam, mas sempre de maneira precária e provisória, operada por aproximações contínuas, que são as teorias, que em grego significa olhar, contemplar e, principalmente, especular.

É difícil o entendimento do não acesso ao real. Por exemplo, não sabemos o que é uma cadeira na sua essência, de quantos e quais átomos, moléculas e células é constituída, a sua origem, a sua massa exata, a sua coesão, a sua idade – pesquisar muito sobre cadeiras, de nada servirá para conhecer totalmente UMA cadeira. O máximo a que podemos chegar é ao conceito sobre cadeiras em geral, que possibilita o reconhecimento imediato de qualquer cadeira, independentemente do tamanho, constituição, textura, cor, etc. - o que não invalida o fato de que jamais venhamos a conhecer a totalidade de uma cadeira particularizadamente.

Assim, apesar de não termos acesso ao real, nos viramos bem com a nossa capacidade aprendida no nosso meio de compartilharmos as conceituações próprias da nossa cultura. Alguns povos tem um conceito de cadeira ligeiramente diferente do nosso, já que se sentam em almofadas ou no chão, porém, na sua qualidade de humanos eles compartilham os mesmos universais típicos da nossa civilização.

O mesmo problema das cadeiras é aplicável a outras coisas intangíveis, tais como amor, ódio, origem da vida, ser, cosmogenia, universo, homem, sociedade, tempo, envelhecimento, relações humanas, realidade, ilusão, crença, etc. Para cada uma delas construímos conceitos provisórios e precários, que se aprimoram ao longo do tempo sem, contudo, nunca chegar à “verdade”. A palavra verdade está entre aspas porque, no momento em que um conceito abrangesse a essência da coisa, ele se tornaria um ente inútil, pois prescindiríamos da instância da linguagem, por termos apreendido aquele objeto na sua totalidade.

Até hoje na história da humanidade tal fato não aconteceu, pois todos os conceitos continuam como conceitos, ou seja, constructos mentais gerados na tentativa de entendermos o universo, pelo menos simbolicamente. Sobre este grave problema do acesso ao real, a arte, muitas vezes mais sabiamente do que a filosofia, nos consegue passar a ideia do que seria a apreensão direta sem a instância da linguagem, sem a mediação do conceito.

Estou me referindo ao magistral conto “Aleph” de Jorge Luis Borges, cujo personagem encontra numa casa em ruínas um ponto especialíssimo que fornece ao observador um instantâneo único do universo. No oriente isto é chamado de Samadhi, ou “vazio iluminador”, que no entanto, é algo que jamais pode ser traduzido em palavras, o que quer dizer que a experiência da iluminação não é um fato intersubjetivo, justamente por não permitir a conceituação, incorrendo no mesmo dilema dos dogmas religiosos: ou você vivencia, ou cai no acredita/não acredita.

Leia na íntegra o conto de Jorge Luis Borges ===» ALEPH.

Leia também:
» O problema do Modelo Científico.
» Conceituação de Animal Simbólico.

5 comentários:

  1. Só li um conto de José Luís Borges “Os Teólogos “ volvido tanto tempo ainda o retenho na mente. Adorei.

    A imagem que temos de nós próprios afecta, de modo decisivo, as nossas expectativas e comportamentos.

    Porque será que continuamos a olhar para o nosso país como um parente pobre dos grandes do mundo? De onde vem este ímpeto comparativo e depreciativo constante? Qual é a origem?
    Tenho a minha verdade?
    Temos História a mais e crítica a menos. A nossa História contém a explicação dessa fundamental falha de sentido crítico; é uma História de aventuras e empreendimentos tolhidos pela ganância e pela Inquisição, uma História que enxotou deliberadamente a liberdade, o pensamento e o ímpeto de inovação.

    Num país feito de castas, hierarquias e hipocrisias instituídas, com uma democracia arenosa e precária, qualquer cheiro a mudança aflige - por isso as questões essenciais da vida e da felicidade das pessoas foram durante tanto tempo empurradas para baixo do tapete, alcunhadas de "questões fracturantes". Porque "a família" se sobrepõe a todo o sentimento de pertença social, falta-nos acção cívica e voluntariado. "A família", no trabalho, é a corporação - por isso vemos uma tão alta percentagem de professores tão embrenhada na defesa das suas regalias e tão pouco interessada na defesa da Educação.
    Acresce que a tão glorificada família tradicional serviu muito mal as pessoas: foi uma prisão forçada para as mulheres, um antro de violência e de abusos inescapáveis para milhares de crianças, e de um modo geral, uma fábrica de conflitos e infelicidade.
    A família está, desde há décadas, em mudança: em vez de família, temos "famílias", com variados desenhos. As pessoas estão, finalmente, a começar a poder escolher o estilo de vida que querem. O pilar da nação são as pessoas e os seus sonhos. A comunidade.
    A família, na política, é "o partido”
    Procuro encontrar explicações para os factos envolventes. Por isso especular é imprescindível.

    Atrevo-me a dizer que sem filosofia a palavra “ ciência “ não existia.

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  2. isso é uma bosta

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  3. O que é conceito?

    Gosto de dissertações. Vem isto a propósito de:

    Será que o “amor eterno” não é uma fantasia elevada ao estatuto de mito?

    Refiro-me ao conceito de “amor-romântico-erótico”

    Não tenho a veleidade de ser a primeira pessoa a pensar nisto.
    Os dois conceitos são complicados: amor e eternidade.

    A eternidade, pode ser numa perspectiva teológica, associada ao ideal de vida eterna.
    Numa perspectiva filosófica pode ser associada à procura de um sentido para a existência. Até aqui, não foi muito difícil concluir.

    As teorias, são sempre interessantes e estimulantes mas, não podem converter-se em raciocínios de circunferência.
    Assim, fui ao Google procurar o significado do termo “ amor eterno” para ver se existia alguma explicação consistente. Nada.
    Revisitando a história o termo “ amor “ está relacionado com coração.
    O tempo não é estático, a ciência evoluiu e remeteu-nos para uma nova era a “cerebral”. Esta explica que é algo físico, compatibilidade hormonal.

    Será assim tão simples?

    O imortal Aristóteles, na Ética a Nicómaco, segundo a minha interpretação, diz que é um conhecimento mútuo e de benevolência recíproca. Ora esta definição, penso eu, é abrangente, ou seja, os vários tipos de amor.

    Conclusão: Fiquei num beco sem saída, ou como disse Apeles “ Não vá o sapateiro além da chinela “

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  4. O amor eterno contrapõe-se ao amor eterno enquanto dura? Certamente que não posto que ele está além do tempo e espaço. Assim sendo, quem o sente sabe que existe, mesmo não podendo provar algo que escapa à abrangência dos conceitos inter-subjetivos.

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  5. NÃO ENTENDI NADA MAS TD BEM...PRECISAVA DESSE CONTEUDO MAS NA VERDADE VCS NÃO ME EXPLICARÃO NADA...BANDO DE PUTÃO QUEM FEZ ESSE BLOG...

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