Não vou tentar lutar contra a obviedade ululante da supremacia do corpo de Auschwitz* contra o chamado padrão normal de peso versus estatura. Não há como esconder que no mundo fashion não há lugar para o peso ideal e muito menos para o sobre-peso.
Há muitos textos sobre o assunto, que apesar da excelência de alguns, quase todos eles emitem juízo de valor propugnando libelos condenatórios contra o que está posto aí, sem tentar entender o outro lado, a sensação das adolescentes que se veem dilaceradas entre dois fogos; a desaprovação social da família e o círculo social mais próximo, e a exigência intransigente do mercado de trabalho que impõe um padrão de beleza típica de campo de concentração.
Como não vou me dar ao trabalho de reproduzir a constante ladainha de repulsa aos efeitos devastadores deste Transtorno Alimentar, resta-me tentar entender a lógica por trás desta doença insidiosa que quando mata, pega sempre a família de surpresa porque as suas vítimas desenvolvem subterfúgios para ocultar seus hábitos alimentares bizarros e a decorrente e monumental perda de peso.
Uma das evidências da lógica perversa que sustenta o mundo da moda vem de uma das suas maiores próceres, a Top Model brasileira Isabeli Fontana que declarou textualmente:
"Hoje eu quero estar mais magra que o normal para trabalhar bastante. O mercado sempre exigiu isso. É conversa fiada dizer que mudou. O bonito é ser magra mesmo, fazer o quê? É mais chique, a moda exige ser magra!".**
O que resta para as adolescentes que sonham brilhar nas passarelas, ou ganhar contratos de ensaios fotográficos, senão se submeter à ditadura dos papas da moda que só admitem rostos esfaimados em formas esquálidas?
Nada resta senão procurar suas semelhantes em Blogs Pró-Anorexia*** para aprender e compartilhar métodos radicais de redução calórica e estratégias para esconder da família a evolução do processo.
A comprovar o glamour da magreza extrema estão as páginas das revistas de moda que nos brindam com o segredo do sucesso; todas, absolutamente todas as figuras mais destacadas compartilham a única realidade de estar de 20 a 30 quilos abaixo do peso ideal.
Por mais que a mídia reporte excepcionalmente a ascensão de modelos "gordinhas", não há vez no mundo real para as garotas normais. Um quilo a menos ou a mais é fator determinante para ganhar ou perder um contrato em Hong-Kong de 50 mil dólares, um quilinho a mais tem força suficiente para carimbar o passaporte da volta... e do fracasso.
Por isto, enquanto não mudar o critério que seleciona apenas os corpos que fazem às vezes de cabide, de nada valerão as campanhas contra a Anorexia e a Bulimia. De nada valerão os rogos das famílias junto ao leito de agonia das suas filhas que foram descobertas em seu mal tarde demais.
É impossível impedir que as garotas sejam ofuscada pelo rastro de sucesso deixado pelas magrelas célebres, enquanto a resposta às perguntas abaixo for sempre a mesma:
A super modelo inglesa Kate Moss teria se projetado mundialmente sem contar com a sua famosa silhueta de tábua?
A ex-modelo Carla Bruni, atualmente a 1ª dama da França, teria virado lenda das passarelas mundiais com um corpo dentro do peso ideal?
A ex-modelo e publicitária Tessália Serighelli estaria entrando atualmente no Big Brother Brasil 10, se não fosse graças ao seu corpo coadunante com os padrões de Auschwitz?
A lista inumerável das celebridades macérrimas responde negativamente a todas as perguntas e tal fórmula de sucesso fornece um terreno fértil para a proliferação de Blogs Pró-Anorexia e Bulimia e o erro não está neles, que são o efeito, e sim na indústria Fashion, corroborada por governos omissos, que sem quaisquer escrúpulos condenam jovens saudáveis à osteoporose futura e muitas vezes à morte prematura.
O prêmio máximo é a fama, e o bônus, o Êxtase do Faquir.
Os Sites e Blogs que ensinam técnicas bombásticas de redução de peso corporal, prometem além do prêmio final, que é o sucesso consubstanciado em fama e dinheiro, algo de apelo mais imediatamente prazeroso. Com o coroamento dos esforços na luta contra a abstinência de comida, a candidata que supera a fase inicial do sofrimento provocado pela fome, atinge o estágio do “Êxtase do Faquir”.
O êxtase do faquir é o clímax alcançado pelos ascetas indianos depois de anos de muitas privações, padecimentos e mortificações: quando o ascetan sente o seu corpo leve, praticamente flutuando, e uma paz e alegria imensa consigo mesmo e o mundo.
É o que acontece com as candidatas a faquir que conseguem dobrar a vontade de comer, vão se sentido cada vez melhor e mais completas, a sua pressão arterial vai abaixando e elas vão se apagando aos poucos como uma vela em seus últimos bruxuleios... até que dormem felizes o sono eterno da morte.
[Ophelia Morta - John Everett Millais]
Referências:
*Auschvitz=famoso campo de concentração estabelecido na Polônia pelos nazistas alemães durante a 2ª Guerra Mundial [Wikipedia].
**Declaração de Isabeli Fontana [EGO].
***Blogs Pró-Anorexia [Blog Intermídias].













12 comentários:
Existe um lado bom nessa história. Pelo menos pra aqueles que apreciam humor negro.
Por exemplo, ontem recebi por e-mail o calendário Playboy de 2010. Dei boas risadas. A cada foto, uma mulher mais franzina do que a outra. As bundinhas pareciam de criança, as pernas, duas varetas. Sem contar os seios postiços, durinhos como pedra. HAHAHAHAHAHAHAHAHA
Passaporte para o sucesso sem dúvida, só de curta duração. Pagam um preço muito elevado pela dita moda e o preocupante é que se está a tornar numa epidemia. O que é que estas garotas têm na cabeça?
Os homens (falo por mim) gostam de mulheres mas não se preocupam, mais, nem reparam nas roupa que usam.
Veja só, acabei de ler o Gilberto Dimenstein na Folha de SPaulo e o assunto é exatamente esse.
Ele informa que na Espanha acaba de ser aprovada uma lei que proibe comercias que conduzam à apologia da beleza estética. E dá mais um monte de informações dobre essa praga que se chama querer-ganhar-dinheiro-custe-o-que-custar.
E termina o artigo com um comentário bem interessante: Se a Marylin Monroe ainda estivesse entres nós por esses dias, seria mandada para um Spa.
Sabe qual o cancer que nos corroe à todos? O pensamento único.
Grandes abraços,
Jonas
www.jotagebece.blosgpot.com
A sábia Top Model acabou com este conversê dizendo que não importa o que os politicamente corretos acham, as agências só contratam esqueletos.
Enquanto não houver punição e prisão dos papas Fashion, nada mudará.
Carissimo Isaias, sem querer polemizar mas já polemizando, conheço umas quantas gordinhas que vão indo muito bem obrigado, na profissão e na vida amorosa. E já que voce através de uma "sábia" top model mandou o politicamente correto esperar lá fora, eu acho mesmo é que os sujeitos que fazem os modelitos que quase ninguém usa, não gostam muito de mulher digamos assim agradáveis e atraentes ao olhar. A mim me parece haver um prazer sádico em torna-las umas maquininhas mal humoradas, sem expressão no rosto e cambaleantes.
Porque? Já ouviu que para combater o inimigo é preciso enfraquece-lo?
Grandes abraços.
Jonas
Jonas, uma coisa é mulher com peso normal ir bem na profissão e na vida amorosa, outra muito diferente é triunfar no mundo da moda.
Infelizmente, de boas intenções o inferno está cheio e a cada morte de modelo por anorexia, o que se vê é a restauração das boas intenções, mas nenhuma ação prática no sentido de modificar o paradigma.
A "sábia" apenas cutucou a ferida na carnegão dizendo a verdade que todos queremos esquecer, não há lugar para normais no showbusiness.
É aberrante assitir à degradação epidémica e presenciar sem hipótese de alterar o rumo.
Os estilistas, as agências de modelos, incentivam as jovens. Porém, não é admissível que os Governos em geral assistam impávidos e serenos e pactuem com isto. Dir-me-ão que é uma questão económica. Será. Não me digam que a vida humana é um bem transacionável.
Mário,
se os governos nem conseguem combater tabagismo, álcool e drogas, o que diremos de assuntos "menores". E a Europa dá um dos exemplos mais vergonhosos para o mundo.
para mim beleza não é sinonimo de ser um esquleto. Acha bem as mulheres se matarem só para agradarem os outros?
Elas não se matam apenas para agradar, mas porque muitas vezes é a única via para o "sucesso", em aspas duplas, pois costuma ser um caminho sem volta.
Interessante é constatar que, mesmo depois de tanto tempo, mulher nenhuma ter comentando por aqui. Por que sera?
Uma séria insinuação de que elas pouco se importam com o lado negro da magreza por valorizarem muito mais a vassalagem aos estereótipos?
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