31/12/2009

Darwin descreve um peixe Porco-espinho.

Diário de Darwin comentado - Parte 12.

Desenho de Diodon por Kellscraft Studio

Neste trecho do seu diário Darwin descreve um peixe porco-espinho que ele encontrou no litoral da Bahia quando chegou ao Brasil em 1832, trata-se, provavelmente, do Diodon holocanthus, (que ele identifica como Diodon antenatus).

Não há muito que comentar sobre suas descrições, a não ser chamar a atenção para o detalhamento com que ele as fazia em seu diário de bordo, tornando sua viagem bem vívida até hoje. Tais observações contribuíram para embasar sua polêmica teoria de Evolução das espécies. Seu exemplo deve ser seguido, pois as habilidades de observação e de escrita são atributos altamente desejáveis para quem pretende a carreira científica ou boa colocação no mercado de trabalho.

(Darwin): Divertiu-me certo dia, observar os hábitos do Diodon antenatus [sic], num exemplar apanhado quando nadava na vizinhança da praia. Este peixe de pele flácida, como é sabido, goza da singular propriedade de distender o corpo numa forma esférica. Retirando-o da água por alguns momentos e mergulhando-o novamente, notei que considerável quantidade de água e de ar entrava pela boca, o mesmo acontecendo, provavelmente, pelos orifícios branquiais. O processo efetua-se de dois modos: o ar é aspirado e, a seguir, forçado a penetrar na cavidade do corpo, de onde não pode retroceder em virtude de certa contração muscular, visível exteriormente; a água, porém, penetra por uma corrente branda pela boca que o animal deixa aberta e imóvel. Isso indica por conseguinte que o ato se baseia na sucção. A pele do ventre é muito mais flácida do que a do dorso, e durante a inflação, portanto, a superfície inferior distende-se muitíssimo mais que a superior e, como consequência o peixe se apresenta flutuando de costas. Cuvier duvida de que o Diodon nessa posição possa nadar, entretanto o animal pode mover-se tanto em linha reta como voltando-se para um ou outro lado. Este último movimento é efetuado exclusivamente pela ação das barbatanas peitorais, a cauda ficando pendida e inativa. Em virtude do corpo boiar com tanto ar no interior, as aberturas branquiais mantêm-se fora da água, todavia atravessa-as constantemente uma corrente aspirada pela boca.

Diodon holocanthus por Fish index

Diodon holocanthus "inflado" por Fish Index

(Darwin): “O peixe depois de permanecer algum tempo distendido, expele o ar e a água com grande violência pela boca e aberturas branquiais. Pode soltar, também, apenas parte da água o que leva a crer que o fluido é aspirado com o fim de regular a gravidade específica do animal. O Diodon dispõe de vários recursos de defesa. Além de uma severa mordida, é capaz de expelir um jato de água a certa distância, fazendo ao mesmo tempo um ruído curioso pelo movimento das mandíbulas. Com a intumescência do corpo as papilas que cobrem a pele tornam-se eretas e pontudas. A circunstância mais notável, no entanto, é que quando tocada, a pele do ventre secreta uma matéria fibrosa de linda cor carmesim. A mancha deixada sobre o marfim e o papel é tão persistente que até o dia de hoje ainda ostenta todo o seu brilho. Ignoro completamente a natureza e utilidade dessa secreção. Contou-me o Dr. Allan of Forres que frequentemente encontrava um Diodon flutuando distendido e vivo no estômago do tubarão, e que soubera de vários casos em que o animal tinha aberto uma passagem não só através das paredes gástricas como também das tramas musculares, matando portanto o monstro que o engolira. Quem iria imaginar que um pequenino e flácido peixe fosse capaz de destruir um colossal e feroz tubarão?

Comentários finais:
1-Darwin se refere a persistência da cor “até o dia de hoje” Cabe lembrar que a primeira versão do diário foi publicada em 1939 (Wikipedia), três anos após seu retorno à Inglaterra. Já a tradução utilizada nestas postagens é da segunda edição, publicada em 1871. Segundo Darwin, na segunda edição, algumas partes foram condensadas ou corrigidas e adições foram feitas para tornar a leitura do livro "mais aprazível ao gosto popular".

2- A estória do Dr. Allan of Forres é difícil de engolir, mas como foi assim relatada por Darwin, preservemos o registro. Para mais tubarões deem uma olhada na fonte da imagem acima: Manos Guardanapo

Por: Gladis Franck da Cunha

Referências:
Darwin, C., Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo - Vol.1, Nova edição, 1871. Abril Cultural. Companhia Brasil Editora, São Paulo, s/d.

Kellscraft Studio. Journal of Researches into the Natural History and Geology of the countries visited during the voyage round the world of H.M.S. Beagle under the command of Captain Fitz Roy, R.N. By Charles Darwin, M.A., F.R.S. disponível em: http://www.kellscraft.com/VoyageOfBeagle/VoyageOfBeagleCh01.html

Imagens do Diodon: Fish index e CSUDH


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5 comentários:

  1. Porra... tu é phodd....digamos que penso que não precisaria da ciência para viver, mas "bota vívida nisso"! Humm... então são as intumescências do corpo do animal que dão aquele aspecto pontiagudo, hã? OK veremos mais em "Manos Guardanapo", e depois voltaremos, vossos leitores, com minuciosas observações sobre o tema, assim como o fez Darwin nas suas, digamos.
    Ótimo tema!
    PS.: esse negócio de partes... é pra deixar qualqur um louco, não? rsrsrs

    Abraços fraternos,
    um ótimo ano,
    e um grande abraço
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  2. Bruno CavalleriJan 4, 2010 10:17 AM
    Muito interessantes esses posts sobre o diário de Darwin =D
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  3. Baiacú ou Diodon?
    A dúvida quanto ao peixe se insere no problema geral de utilização de nomes populares e nomes científicos.
    Os mesmos nomes populares podem designar espécies diferentes. Por exemplo: Baiacu é um nome de origem Tupi, usado para designar diversos peixes Teleósteos, Plectognatos, que tem corpo recoberto de espinhos ósseos ou placas ósseas, comuns na fauna fluvial ou marinha da América do Sul e, mais especificamente, do Brasil. O termo Baiacú é utilizado, na linguagem corrente, para designar, especificamente, as espécies desta ordem que têm a propriedade de inchar o corpo quando se sentem ameaçadas por um predador ou outro fator. Alimentam-se de moluscos crustáceos e algas. Muito apreciado para sushi pode causar envenenamento se não for bem preparado, pois possui glândula de veneno.

    Espécies de duas famílias são chamadas de Baiacús: Ostraciidae e Diodontidae.

    Como Darwin usou o nome científico Diodon antenatus, sabe-se que pertence a família Diodontidae. Porém não encontrei nenhuma referência a espécie “D. antenatus”, por isso suponho que seja a espécie “D. holocanthus” pela maior semelhança com os desenhos apresentados na referência da Kellscraft Studio.

    Para mais informações sobre Baiacus pode-se consultar a Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Baiacu
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