Diário de Darwin1 comentado - parte 8
O arquipélago de São Pedro e São Paulo é um ambiente inóspito para humanos, pois não há nele uma planta ou musgo sequer e, principalmente, nenhuma gota de água doce. Porém, ávido por permanecer o máximo possível em 'terra firme', Darwin desembarcou e explorou este “porto” inseguro, descobrindo toda uma comunidade de animais terrestres, que se apoiam uns nos outros para sobreviver nestas condições extremas.
Viuvinha com filhote por Pbase
Suas águas são habitadas por tubarões baleias e martelos, moradores permanentes da região e das lagostas, que se contam aos milhares. Grandes pelágicos2 também freqüentam o local, onde costumam se concentrar para armazenar energia e continuar suas longas migrações (Wikipedia).
(Darwin): "Nos rochedos de São Paulo somente encontramos duas qualidades de aves – uma espécie de pelicano e de gaivota, ambos tão mansos e estúpidos, talvez em virtude de não se acharem acostumados a ver visitantes, que poderia ter abatido quantos quisesse com meu martelo geológico. "
Atobá marron por Deep Sea Images:
(Darwin): "A fêmea do pelicano deitava os ovos sobre a rocha nua, mas a gaivota construía um ninho muito simples com algas."
Estudos clássicos sobre comportamento animal3, mostraram que as aves que não constroem ninhos elaborados e vivem em bandos, como as gaivotas, sabem reconhecer exatamente o seu próprio ovo memorizando seu padrão de manchas. Abaixo um ovo de viuvinha com padrão de manchas.
(Darwin): "Ao lado de muitos destes ninhos podia ver-se um pequeno peixe-voador, ali deixado suponho eu pelo macho, a fim de servir às necessidades da companheira. Era muito divertido observar como um caranguejo (Graspus) morador das fendas dos rochedos, subtraía o peixe do lado do ninho, quando espantávamos as aves. Sir W. Symonds, uma das poucas pessoas que desembarcaram aqui , disse-me ter visto esses caranguejos chegarem mesmo a arrastar do ninho os filhotes e devorá-los".
Graspus Pedal Faster
(Darwin): "Nem uma simples planta, um líquen sequer, cresce nesta ilhota, o que não impede, todavia, que seja habitada por muitos insetos e aranhas. A lista que segue, creio, completará a fauna terrestre: uma mosca (Olfersia), vivendo à custa do pelicano, e um carrapato que deve ter vindo aqui como parasito das aves; uma pequena mariposa parda, pertencendo a um gênero que se alimenta de penas; uma barata (Quedius) e um piolho debaixo do esterco; finalmente numerosas aranhas que segundo penso, fazem presa sobre estes pequenos sequazes das aves marinhas."
Uma barata de gênero Quedius por Galerie Insecte
Neste ponto, Darwin compara o ambiente árido desse pequeno arquipélago com as férteis ilhas de coral, considerando que as formas de vida presentes nesses rochedos inóspitos questionavam o conceito de "supremacia do ser humano" em relação às demais espécies.
O arquipélago de São Pedro e São Paulo é um ambiente inóspito para humanos, pois não há nele uma planta ou musgo sequer e, principalmente, nenhuma gota de água doce. Porém, ávido por permanecer o máximo possível em 'terra firme', Darwin desembarcou e explorou este “porto” inseguro, descobrindo toda uma comunidade de animais terrestres, que se apoiam uns nos outros para sobreviver nestas condições extremas.
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Suas águas são habitadas por tubarões baleias e martelos, moradores permanentes da região e das lagostas, que se contam aos milhares. Grandes pelágicos2 também freqüentam o local, onde costumam se concentrar para armazenar energia e continuar suas longas migrações (Wikipedia).
(Darwin): "Nos rochedos de São Paulo somente encontramos duas qualidades de aves – uma espécie de pelicano e de gaivota, ambos tão mansos e estúpidos, talvez em virtude de não se acharem acostumados a ver visitantes, que poderia ter abatido quantos quisesse com meu martelo geológico. "
A espécie de pelicano trata-se do atobá-marron (Sula leucogaster), que ocupa metade do terreno da ilha principal, a Belmonte, onde a estação científica brasileira e o farol estão localizados. Já a espécie de gaivota é a viuvinha (Anous stolidus). Segundo André Seale, a população de atobás em 2004 era de 340 indivíduos, sendo considerados os "verdadeiros donos" da ilha. Alimentam-se dos caranguejos e peixes da região, e a coletânea de seus excrementos gera o guano, sedimento orgânico que cobre a ilha e dá seu aspecto esbranquiçado. Os atobás-marrons brigam bastante, principalmente quando a proteção do filhote é ameaçada - são capazes de bicar incessantemente, o que torna a vassoura para espantá-los uma ferramenta fundamental aos humanos que se aventuram por lá.
Atobá marron por Deep Sea Images:
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Estudos clássicos sobre comportamento animal3, mostraram que as aves que não constroem ninhos elaborados e vivem em bandos, como as gaivotas, sabem reconhecer exatamente o seu próprio ovo memorizando seu padrão de manchas. Abaixo um ovo de viuvinha com padrão de manchas.
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Graspus Pedal Faster
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Uma barata de gênero Quedius por Galerie Insecte
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A descrição de Darwin exemplifica as complexas relações observadas entre os seres vivos, onde a existência de um possibilita a dos demais. As aves marinhas são os precursores dessa fauna porque conseguem beber a água do mar, que possui uma concentração de 3,5% de sal. Se nós tentássemos matar a sede com ela de nada adiantaria, pois nossos rins não estão preparados para absorver tanto sal e o máximo que eles conseguem eliminar é 2,2%. assim, se um náufrago beber dessa água, o resultado será desidratação e morte. Como fazem as aves marinhas? Elas possuem uma glândula de sal, capaz de eliminar uma solução salina duas vezes mais concentrada que a água do mar. Por isso, elas podem comer alimentos super-salgados ou beber a água do mar sem susto. O excesso de sal é expulso através de canais que ligam a glândula às narinas.
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| De Diversae |
Neste ponto, Darwin compara o ambiente árido desse pequeno arquipélago com as férteis ilhas de coral, considerando que as formas de vida presentes nesses rochedos inóspitos questionavam o conceito de "supremacia do ser humano" em relação às demais espécies.
(Darwin):"Dar a descrição, já tão repetida, da majestosa palmeira e das outras plantas tropicais, em seguida a descrição das aves, e, por fim, a do homem que toma posse das ilhas de coral, logo que estas se formam no Pacífico, não será este talvez o modo correto de proceder, pois receio que a poesia desta história poderá perder seu encanto pelo fato de saber que os primeiros habitantes de uma terra oceânica, recém formada, foram aranhas, insetos e parasitos coprófagos."
Esta parte do diário é finalizada pelos comentários sobre a grande riqueza do arquipélago, que é a sua fauna de peixes. Riqueza essa que se tornou importantíssima para a ciência, pois, atualmente, são os barcos de pesca que transportam as equipes de pesquisadores ao local Andre Seale4.
(Darwin): "O menor rochedo nos mares tropicais, que der base para o crescimento de inúmeras variedades de algas e animais compostos, servirá igualmente de esteio ao desenvolvimento de grande número de peixes. Constante era a luta entre os tubarões e os marinheiros nos botes, para decidir sobre a posse dos peixes apanhados no anzol. Ouvi dizer que em um rochedo perto das Bermudas, muitas milhas no alto mar, e a uma profundidade considerável, deveu sua descoberta à circunstância de ter sido notada a presença de peixes nas suas imediações."
Por: Gladis Franck da Cunha.
Referência e Notas:
1 - Texto usado para as citações: Darwin, C., Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo - Vol.1, Nova edição, 1871. Abril Cultural. Companhia Brasil Editora, São Paulo, s/d.
2- O que significa Pelágico? Do latim pelagos significa o "mar aberto". Assim, diz-se dos organismos aquáticos que nadam livremente na coluna de água. Fazem parte deste grupo as baleias e muitas espécies de peixes que vivem geralmente em cardumes, como as sardinhas, as anchovas, os atuns e muitos tubarões.
3- MANNING, Aubrey. Introdução ao comportamento animal. 1ed. Rio de Janeiro : Livros Técnicos e Científicos, 1977.
Por: Gladis Franck da Cunha.
Referência e Notas:
1 - Texto usado para as citações: Darwin, C., Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo - Vol.1, Nova edição, 1871. Abril Cultural. Companhia Brasil Editora, São Paulo, s/d.
2- O que significa Pelágico? Do latim pelagos significa o "mar aberto". Assim, diz-se dos organismos aquáticos que nadam livremente na coluna de água. Fazem parte deste grupo as baleias e muitas espécies de peixes que vivem geralmente em cardumes, como as sardinhas, as anchovas, os atuns e muitos tubarões.
3- MANNING, Aubrey. Introdução ao comportamento animal. 1ed. Rio de Janeiro : Livros Técnicos e Científicos, 1977.
4 – Como é a estação de pesquisa do arquipélago de São Pedro e são Paulo? É uma edificação de madeira de 45 metros quadrados, onde equipes de quatro cientistas e pesquisadores revezam-se a cada 15 dias, com o apoio da Marinha do Brasil. As instalações compõem-se de uma cozinha, uma sala de refeições, centro de comunicações, quarto para quatro pessoas, quarto de banho e varanda. O telhado conta com painéis fotovoltaicos para geração de energia elétrica. À pequena distância, ergue-se um abrigo para os geradores e baterias, um equipamento de dessalinização da água do mar e outro abrigo para cilindros de oxigênio e de gás. Uma passarela liga a base ao ponto de embarque, servido por um turco. Entre os equipamentos científicos da base destaca-se um marégrafo (Wikipedia).
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6 comentários:
Afe maria, vc está prolongando muito essa história do Darwin, já está enjoativo.
Prezado anônimo,
Sinto muito, mas foram cinco anos de viagem e eu ainda não ultrapassei os dois primeiros meses. Darwin era detalhista então...você ainda terá muito para ler a respeito, pois vou até o fim.
Sempre lhe restará a opção de não ler, mas vai perder com isso, então coragem!
Darwin merece tantos posts, afinal graças a ele que sabemos que fazemos parte de um processo evolutivo de sobrevivência e seleção natural. Imagine essa teoria dita no século 19, quando mundo não estava preparado para ouvir estas afirmações.
Abraços
É assim que se fala Clarissa! A Gladis tomou a a si o trabalho de publicar na íntegra os diários de Darwin, mas não ipsis literis e sim introduzindo comentários preciosos que resgatam, atualizam e contextualizam as informações do século XIX.
Na realidade, esta é uma iniciativa pioneira em língua portuguesa, possível de ser feita por alguém que, além do seu doutorado em biologia, tem anos de experiência na epistemologia da educação e na lida de sala de aula.
Como o Blogpaedia foi criado com o escopo de popularizar o conhecimento científico, nada mais justo do que darmos loas a empreendimentos de tal vulto.
Olá Prof. Gládis, parabéns pelo elaborado trabalho e pela seleção das imagens. Continue postando estes valorosos textos.
Marcelo,
Fico feliz com esta análise, pois este projeto me interessa muito. Cada vez mais precisamos de pessoas que aprendam a ler e escrever. Os textos do Darwin são muito bons e detalhados e a internet permite dar a eles o que faltava: as imagens.
Obrigada pelo comentário
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