Sob o peso das meta-narrativas hegemônicas da modernidade: cristianismo, capitalismo, comunismo, progresso científico, questionar ou perder a fé nestas narrativas significa que o sujeito passa a questionar a sua própria subjetividade, ao invés de simplesmente delegá-la à coletividade do sistema de autenticação social. A questão da história e do devir são temas centrais no filme Blade Runner, lapsos temporais transformados em narrativas linearizadoras dos eventos, em que cada um deles é instituído de causa e efeito; onde as eras se sucedem uma após outra seguindo a lógica dialética. Mesmo que determinados acontecimentos históricos não sejam imediatamente racionalizáveis à contemporaneidade, a história os reconstrói e os valida, retificando as incongruências e integrando-os ao patrimônio das narrativas inteligíveis e racionais.
No entanto, Blade Runner subverte o nosso senso histórico prosaico através da técnica do misancene(1). No filme, Rachel, travestida de arquétipo feminino fatal dos filmes “noir”, vai ao apartamento de Deckard com a intenção de lhe interrogar sobre os resultados do teste “Voight-Kampf”, de reconhecimento de replicantes. A cena se move lentamente no novo espaço do apartamento de Deckard, usando um tradicional Plano Geral (establishing shot), dando ao espectador o tempo necessário para que ele se dê conta da estranheza subjacente ao ambiente familiar. O misancene é obtido através da combinação da simultaneidade entre objetos domésticos conhecidos e outros de natureza bizarra e alienígena, produzindo a paradoxal sensação entre a familiaridade e o surrealismo.Ao lançar mão deste recurso, o diretor suscita genialmente as questões “motto” do filme sobre o sentimento de ausência de herança hereditária. Embora os aspectos domésticos, tais como a pia de cozinha e o guarda-louças, sejam cotidianamente reconhecíveis, somos incapazes de estabelecer paralelos entre os avanços estéticos e tecnológicos do cenário de Riddley Scott e a nossa vida contemporânea. Eis a importância do misancene, pois é reveladora das questões de fundo acerca da autenticidade do passado de Rachel e da clara ausência de conexão entre a nossa sociedade e a mostrada no filme.
As estruturas que circundam os personagens, propositalmente desconectadas de qualquer sucessão lógica de cunho formal ou científico, fornecem o pano de fundo para a suscitação de questões concernentes à concepção histórica dialética. Neste universo de quebra das relações de causa e efeito, movimentam-se personagens sem passado nem futuro, ou mais especificamente, replicantes que possuem um passado implantado e um devir determinado geneticamente.
Durante as cenas da abertura do filme, podemos contemplar uma Los Angeles do futuro, sob a íris de uma visão alienígena desconectada do devir da entidade geográfica estabelecida no presente. A trama recria uma Los Angeles em linhas verticais, povoada por sombras e perpassada de brilhos fátuos intermitentes. A Los Angeles do futuro é mais tributária à Nova Iorque, do que a Los Angeles atual.
O filósofo Derrida sustentou que não há nada fora do texto e o uso freqüente do recurso de cena contínua (continuity editing) no filme pode ser um exemplo irônico disto. O clássico sistema narrativo hollywoodiano foi criado para organizar, explicar e legitimar o status quo e, assim como as meta-narrativas históricas, ele ordena os eventos de acordo com a lógica da causa-e-efeito. Ora, o filme Blade Runner ao se prestar à crítica do uso das meta-narrativas como fontes de explicação e racionalização, entretanto não consegue transcender à sua própria essência de subproduto moderno gestado dentro da lógica dialética que ele procura combater. O conflito que emerge ainda no seio da modernidade, é crucial na pós-modernidade: como derrubar um sistema, sem criar outro, ou como acabar com as meta-narrativas legitimizadoras, sem recorrer a uma?(1) Misancene: nos filmes, diz-se das ambientações que não têm a pretensão explícita de passar a idéia de “realidade”. Um exemplo clássico é quando uma câmera se movimenta continuamente através das paredes, revelando ao espectador que tudo aquilo se passa, na realidade, num estúdio e que são cenários falsos, ou seja, tudo não passa de Mise en Scène.
Fonte:
Blade Runner and the Postmodern use of Mise-en-scene.

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