Após 20 dias no mar Darwin aporta em Cabo Verde numa ilha chamada de Santiago, cuja capital é Praia. Ele se surprende ao deparar-se com uma paisagem bem diferente da inglesa: quente, seca e inóspita, mas busca descrevê-la de forma poética.
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No dia 16 de janeiro de 1832 lançávamos âncora em Porto Praia, em São Tiago, ilha principal do arquipélago de Cabo Verde. É desolado o aspecto que apresentam as imediações de Porto Praia a quem as observa d mar. Em quase toda parte a terra se mostra inóspita à vegetação, um depoimento de passadas iras vulcânicas e do fogo abrasador de um sol tropical. O terreno eleva-se em platôs sucessivos, vendo-se aqui e ali colinas em cone truncado destacando-se de uma serra irregular de montanhas mais elevadas que confinam o horizonte.”
Os "
cones truncados" são colinas com a parte superior chanfradas, como podem ser vista na imagem abaixo.
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É altamente interessante o cenário, observado através da atmosfera pouco transparente deste clima, pelo menos assim pensaria quem, incapaz de julgar além da própria sensação de felicidade, e depois de ter ficado muitos dias no mar, entrasse pela primeira vez num amontoado de palmeiras.”
Por ser um ‘marinheiro de primeira viagem’ Darwin deve ter se ressentido de ficar quase por um mês em alto mar. Além disso, o Beagle era uma embarcação pequena com acomodações muito diferentes do que se pode encontrar nos atuais transatlânticos.
Nas "dependências do Beagle", ações comuns para nós como tomar banho eram luxos impensáveis considerando as parcas reservas de água doce a bordo. Vaso sanitário, então, nem existia, era usado um cantinho junto à murada, que após era lavado com água do mar puxada com um balde. Após quase três semanas nestas condições também iríamos compartilhar sua imensa alegria pela perspectiva de pisar em terra firme.
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De modo geral, a ilha seria considerada como excessivamente desinteressante; contudo a quem está acostumado a contemplar somente paisagens inglesas, a grandiosidade de um terreno absolutamente estéril oferece uma grandiosidade de aspecto, cujo encanto a presença de vegetação mais luxuriante poderia destruir. Mal se pode discernir, sobre a extensa planície de lava, a verdura de uma simples folha, entretanto, cabras em rebanho e algumas vacas conseguem ali viver.”
O fato das cabras terem grande capacidade de adaptação em ambientes ressequidos permite que sejam usadas no programa cabras do Piauí, de Combate a Pobreza Rural (PCPR)[1]. Note-se que ainda hoje Praia apresenta um aspecto inóspito com pouca vegetação, com características semelhantes à Caatinga brasileira como detalha Darwin:
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Raramente chove, mas durante um curto período do ano desabam pesadas torrentes, e isso basta para que, imediatamente depois, de todas as fendas e orifícios brote uma vegetação ligeira. Cedo se estiola, porém, é deste feno natural que se nutrem os animais existentes. Havia, agora, um ano inteiro que não chovia. Por ocasião da descoberta da ilha, a vizinhança imediata de Porto Praia revestia-se de árvores, e a destruição intempestiva do arvoredo causou aqui como em Santa Helena, e em algumas ilhas Canárias, a quase total esterilidade do solo.”
As ações humanas descontroladas afetam o ambiente de forma pior do que um acidente nuclear, pois, como destaca Fábio Olmos “a ‘zona’ de Chernobyl é hoje a maior reserva natural da Europa e ali são encontradas mais espécies que antes, há populações demograficamente saudáveis de espécies ameaçadas, espécies localmente extintas retornaram ou foram reintroduzidas com sucesso e as interações ecológicas
que desapareceram ante o arado e o asfalto estão sendo restabelecidas”
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Os vales amplos e planos, muitos dos quais, na estação chuvosa, servem durante alguns dias de curso as águas, acham-se atapetados de arbustos cerrados e sem folhas. Poucas criaturas vivas habitam estes vales. O pássaro mais comum é o Alcione (Dacelo iagoensis), que pousa mansamente nos galhos de mamona, de onde salta sobre gafanhotos e lagartixas. Sua cor é brilhante, não tão linda,porém como a da espécie européia. Existe, além disso, grande diferença quanto ao vôo, ao comportamento e ao habitat que, geralmente, é o vale mais seco.”
A identificação da maioria das espécies descritas no diário foi realizada após a volta de Darwin à Inglaterra. Os trechos analisados aqui estão sendo retirados da segunda edição publicada em 1871[2], ou seja, 35 anos após o término da viagem. A primeira edição foi publicada em 1845, 9 anos após a chegada ao solo inglês.
As aves coletadas foram identificadas e desenhadas por John Gould, que era ornitologista e curador do museu da Zoological Society . Pode-se concluir que
um cientista não precisa conhecer tudo, mas deve saber coletar e consultar outros especialistas. Atualmente, o registro fotográfico pode substituir a retirada de espécimes para estudo, quando não existem em abundância.
Notas:[1]-Informações sobre o programa
“cabras do Piauí’.
[2]- DARWIN, C.,
Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo - Vol.1, Nova edição, 1871. Abril Cultural. Companhia Brasil Editora, São Paulo, s/d.
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